A década da mea-culpa

Às vezes acho que Oswaldo não superará o tantão que viveu naqueles anos. Foram as sensações mais extremas da sua vida. Tá certo que ele não estava bem; tá certo que ele não fez as escolhas mais corretas ou andou com as pessoas ideais. Entretanto, Oswaldo se pega chorando lembrando dela e escutando “Hey Daydreamer”. Ou até outra lágrima escorre quando toca “Florence” em alguma reunião de amigos, indagando o porquê Lívio escolheu partir mais cedo. 
O início da década foi um sonho. O surto foi tão intenso que a realidade transita entre sensações que o Oswaldo não sabe lidar ou reconhecer até hoje. Lendo as mensagens da rede social abandonada, ele percebe nos parágrafos mal escritos o quanto estava desalinhado com as consequencias. O quanto flutuou em nuvens cinzas e opacas. Não conseguiu julgar da maneira correta quase nada...
Passado-se anos daquele tempo vivido na loucura, Oswaldo ainda tem dificuldade em esquecer. Abandonar a recordação do texto sobre o lápis, ou aquela bike cool dada com carinho. Quisera ele ter usado um óculos mais ajustado para não ter sido tão míope num momento de muita extravagância. Tudo foi uma festa eterna sem sentido tocada numa vitrolinha hipster em meio a muitos sorrisos que jamais voltarão. 
Se acaso pudesse, ele desejaria com todas as forças o perdão e a aceitação do que não se pode mudar mais. Torceria para os erros se apagarem junto com uma noite bem-dormida. E por fim, conseguir um abraço de quem teria tanto a dizer, agradecer ou perdoar por coisas que não fazem o menor sentido. Apenas um “desculpe” já seria de grande valia para seguir adiante, olhando somente para frente e torcendo por uma nova chance nesse caminho estranho chamado vida. 


  

Quarenta e pouco

Aquela amiga teve um bebê lindo. Outra casou-se e divorciou na velocidade de um roteiro de filme cafona. O mais velho da casa busca correção para cataras em seus olhos. A mais nova, só pensa em Disney.

Os anos estão passando. O meu temor com o tempo fica cada vez mais evidente por estar comprando antidepressivos a mais. A vida passa pelo meio dos meus dedos como se estivesse tentando segurar areia. Aliás, a ampulheta deve ter sido uma tentativa de prender os pequenos grãos e o tempo nas próprias mãos. 

Até seus trinta e poucos anos o julgamento é do “infinito e além”. As pessoas a seu redor não tem pressa. Você não tem pressa! Seu despertador tem motivos muito diferentes dos que se tem quando ultrapassados os quarenta com a sensação de nada feito.

Nas memórias mais longínquas, aquelas infantis, a cena é da janela coberta por uma cortina densa. Ladeada por pilhas de jornais e uma velha máquina de escrever IBM.
Alguns anos depois a cena já é outra: um helicóptero, um país diferente e uma nova língua. Talvez novos amores em meio a novos ares. Diferente das memórias infantis, as realizações profissionais foram a que ficaram impressas e pesam nas observações mais reclusas.
 
Quarenta e pouco! O que houve nesse hiato? O que houve com o sorriso ao lembrar daquela janela com cortina grossa e a máquina IBM? E o espanhol: ¿Ya no hablas? Talvez tudo tenha se perdido em meio a percepções falhadas e partidas agoniadas. Julgamentos errados e a fadiga com as futilidades. Afinal o tempo correu e a vitalidade corroeu. Perdeu-se a hora no que era tão importante. E o despertador tocou tarde demais para o que realmente é relevante. 


  

Home


Uma festa no James. Era quinzenal e sempre as quintas. A proposta era reviver as canções dos anos 1990. Quem diria que o coração do Félix ainda grita por aquele mate de pêssego tomado no balcão, enquanto equivocado, ignorava o seu arredor naquela noite. Não sabia o que estava fazendo. Ele podia ter dançado, aplaudido ou ter sido apenas gentil. Nada disso. Foi muito inseguro para tomar a atitude correta.
Com a mudança de endereço do bar, com a distância das pessoas do rolê e do envelhecimento, Félix não tem potência para resgates. Apenas torce que o esquecimento tome conta dos que foram negligenciados. Que seus erros sejam superados. E que ele não seja um mau exemplo usado tanto tempo depois daquela festa.
Hoje a balada está fechada pela pandemia. Corre o risco de quebrar. Junto com essa má notícia, Félix sente uma agonia nostálgica. Mesmo não sendo mais o bar de quando frequentava, fica impressionado com a hipótese do James fechar. Muito do que viveu foi naquele fumódromo grafitado, no bar do primeiro andar ou numa fila madrugada a dentro.
Félix não sacrifica todas as maravilhosas lembranças por uma quinta-feira em que não estava bem - e não foi legal. Houve muitas outras quintas que foram mágicas. E não só quintas: tiveram quartas, sextas, sábados…
Misturando as recordações, tanto as boas e ruins, Félix lamenta pelo saudoso rolê. Parece que em tempos malucos, mistura-se o sucesso e o fracasso. Junta-se a nostalgia com a esperança. E uma canção tocada na pista de dança naquela época nunca fez tanto sentido como hoje: “Oh, home, let me come home // Home is wherever I'm with you // Oh, home, let me come home”.


  

Passagem

Tem o passado do que não foi. Há também o que só será no futuro. E aquele que não muda. Ah passado…. A memória distorce o que poderia ter sido. Temendo um dia ser ultrapassado e esquecido. Nos passos tímidos a passagem pode ser só o resto. Insistindo em passos incertos e modestos. Passados e repassados na incompetência da culpa. Resistindo as inconsequências da cura. Nada passará redimindo. A espera é esquecer o que foi e, só assim, passar o passado a limpo. 



  

Pastel

A sugestão de uma “pastelaria” em um shopping caótico foi a opção dada ao Felix para seu encontro. Nas mensagens trocadas com a moça ele ficou curioso: pastel!? Chegando lá percebeu que a tal “pastelaria” era, na verdade, uma espécie de confeitaria. (“pastel” em alguns lugares hispanofalantes é bolo/torta).

Na ansiedade da espera pela moça, Félix contou o tempo num relógio que estava na parede. Aguentando firme por ter se antecipado no horário. Um novo click do ponteiro pareceu que estava anunciando a garota. Ela entrou em seu campo de visão em meio as filas indianas das lojas do centro comercial. A moça não estava só. Tinha a companhia de duas amigas. “Ué?! Parecia um date!” - conjectura o rapaz estrangeiro. O trio entra na “confeitaria” e vão direto a seu encontro.

Ainda com certa dificuldade em se expressar na língua nativa, ele percebe que as garotas que acompanhavam sua paquera estavam ali para uma avaliação. Sim! Culturas diferentes: certos encontros antes de acontecer devem passar pelo crivo das melhores amigas.

Entre um bolo e outro. Uma xícara de café ou de chá, a pretendida ficou calada. Quem falava e perguntava era a dupla de amigas. Questões de todos os tipos apareceram na conversa. E nada da garota falar qualquer coisa. Apenas observava, olhava para as duas escudeiras a cada resposta dada. E garfando um pastel de fresa y chocolate somente sorria. Felix não tinha nem ideia se agradava o “júri”. Ou se estava pelo menos sendo compreendido.

Após algum tempo as três disseram que deveriam ir. Pediram para encerrar a conta e se foram. Felix ficou confuso e um tanto inseguro com a situação inusitada. Manteve-se imóvel depois da despedida refletindo sobre os aspectos particulares de cada região do mundo. 

Pouco mais de meia-hora da saída do shopping, já no táxi, ele recebera uma nova mensagem: era a moça! Na tela as linhas diziam que esperava por um novo encontro; desta vez sem as amigas. Sugerindo a noite do mesmo dia, chegando a recomendar um restaurante italiano e horário. Prontamente Felix aceitou, correu pro Hotel e começou a imaginar como seria...

O Jantar? O que pode-se dar como certo é que não terminou em pizza.

  

Nó

Cada verso representa um nó na garganta;

Notas em Si bemol rasgam lágrimas em Dó menor;

Aos gritos o coração é silenciado junto com a dor.

Credos passados não enganam nem santos.

Preces malditas não estancam o que há de ser.

Paciência não diz mais nada - nada! 

Esperança virou uma palavra sem nenhum poder.

Não posso escutar, falar ou escrever.

Cada verso representa um nó na garganta;

Notas em Si bemol rasgam lágrimas em Dó menor;

Aos gritos o coração é silenciado junto com a dor.

  

¡Dale!

Fabiana convida para irmos a um lugar que até então não tínhamos ido. No caminho, minha mão esquerda segurava forte a dela, e a direita brincava - imitando ondas com o vento na janela do carro em movimento. A música que tocava no rádio dava o ritmo de como seria aquele domingo de sol. Fonseca em seu brega universal cantava na estação local: “Déjame darte la mano // Para tenerte a mi lado”. 

Chegando no estacionamento do lugar não dava para ter ideia do que esperaria olhando da rua. Entramos no restaurante e meu queixo caiu: estávamos em cima de uma espécie de falésia. As mesas ficavam dispostas em cima do platô rochoso. Olhando para um lado o mar colidia em ondas nas pedras. Para o outro, havia uma pequena praia com águas limpas e calmas- lugar maravilhoso.

Entre um beijinho e outro. Uma história, afagos e goles, Fabiana não imaginava que pouco tempo depois eu deixaria aquele país que tanto me marcou. Não podia dizer - meu coração estava muito apertado. Em devaneios acreditava que omitir seria o melhor para termos plenitude ante a iminente separação. Guardando só pra mim as dores iniciais de um prelúdio irremediável e triste.

O dia foi chegando ao fim e resolvemos descer as escadas do platô de rocha vulcânica para o lado da pequena praia. Todos já haviam ido embora. Não tinha mais ninguém - nem garçons. O pôr do sol “exclusivo” nos deixou sem palavras. E nossos olhares ficaram divididos entre a paixão e a ilusão do final da tarde do Oceano Pacífico. Numa epifania começamos a dançar uma música famosa da internet. A Kizomba nos acompanhou até os últimos raios de sol. “Lento” foi a canção latina que entrelaçou nossos pés molhados na água. E a saideira foi um abraço forte olhando as primeiras estrelas no firmamento.

Encerrado o dia, depois da Fabiana me deixar no hotel, a única coisa que fiz foi chorar. Chorei muito ao separar cada coisa em seu lugar da mala; cada lembrança e cada memória. Queria pegar um potinho e colocar como se fosse mágica tudo o que havia experimentado naquele tempo - levando junto comigo o impossível para onde eu fosse.

Fabiana recebeu a notícia que eu tinha de partir por uma mensagem de texto que enviei na segunda-feira, logo cedo - já estando no portão de embarque. Covardia? Não sei...Preferi que não houvesse despedidas - e que a mágica do dia anterior fosse o registro final do que vivemos intensamente durante aqueles meses. “¡Dale!” O pessoal da empresa aérea gritava para encerrar o embarque e selar o que por um pequeno espaço de tempo foi possível e totalmente inesperado.

  

Panela

Na minha infeliz rotina encontro uma moça especial - numa casualidade. Depois que contei a Ana, sabendo da afetividade que tenho por sopa de feijão, ela resolve me convidar para acompanha-la numa daquelas de panela de pressão, “feita em casa”. Fiquei encantado com o convite diferente. Houve muito carinho na cozinha ao ferver os temperos para o caldo quentinho. Entre uma conversa, um beijo e uma prova do sabor fervendo, a mãe dela telefona. Ficou inevitável escutar que o jantar ali borbulhando na fervura tinha sido feito pela matriarca e não por Ana... tiveram risos da situação - e pouco importou. Ela confirmou, e disse: 

“não poderia te deixar partir sem dividir algo com gostinho de casa. Quisera eu saber o preparo. Na correria dei meu jeito. Irá gostar. Minha mãe preparou mesmo. Contudo, a panela e o tempero de carinho são meus”. Disse aos risos, meio envergonhada...

O calor da atitude misturada com os grãos pretos me aquece até hoje ao lembrar da gentileza - da demonstração de afeto naquela cozinha calorosa que infelizmente nunca mais pisei. 

  

O que não foi

Ele depara-se com Fabiana após um lapso de trinta anos. As aparências indicavam que toda a rejeição do passado seria diluída em uma nova fase. Apenas o homem e a mulher teriam voz. Sem barreiras e muros levantados. Bem, não foi assim. Houve muita arrogância e presunção. Fabiana jogou valendo-se de sua sinceridade. Ficou nítido que a crise da meia-idade estava impactando nos desejos mais honestos. Assim, gerando ruídos oportunistas na inocência inapta.

Jantares, cafés e até um convite: “vamos tomar um vinho?” - não realizaram o entendimento. Mais uma vez a vaidade adolescente” colocou Oswaldo numa posição desconfortável e subjugada. Depois desta nova incha, a reação não veio à altura.

Talvez o silêncio quebrado apenas pelo desejo. Entrelaçados por mãos quentes da sinceridade, reações de olhares sem sentido, fosse o caminho para reajustar os vultos de outrora. Pena! Não foi assim…

  

Cola

Após devaneios repetidos entre uma chegada e partida, Oswaldo acorda para o dia que inicia. Ao ir no banheiro, já sozinho, nota que o box está cheio de post-it. Cada um deles com uma frase escrita a mão reproduzindo o poeta paranaense Paulo Leminski. Emociona-se! Afinal, é o seu autor predileto. Foi as lágrimas pela atitude despretensiosa e gentil. Ele ficou se olhando no espelho ali passivo. Sem saber mais nada sobre as coisas do coração.

A moça que estava com ele se fora - seguir sua vida. Porém, antes de partir - e bem quietinha - fez um gesto que jamais imaginaria vindo de algo fulgaz e com o relógio marcando a hora do seu voo, sem despedida, sem escalas. Talvez nunca mais a visse. Entretanto foi mágico. Ela quis registrar para nunca mais esquece-la. E assim ficou. Oswaldo nunca mais deixou de ler um haikai sem lembrar daquele momento extremante doce, empático e generoso.

Por algum tempo, no meio do seu passaporte havia um “bolo” de papéis pequenos amarelinhos, pregados um no outro. Que junto com a cola lhe dava força para seguir a diante. E quem sabe um dia poder reencontra-la.


  

Sangria

Félix compartilhou uma jarra de sangria com aquela moça de olhos azuis. Aos risos frouxos e totalmente bêbados eles se perderam em sonhos futuros, sem nenhum cabimento. Pensaram até no que fariam no inverno. Ilusões... 

Na situação risonha houve inconveniência. Perderam-se por excesso e expectativa. O que de pronto eram goles virou um relacionamento de três meses.

As jarras seguintes foram perdendo a graça. Sonhos deixaram de ser sonhados e o inevitável e estagnado chegou. O que deveria ser uma conversa séria - talvez um término - ela adaptou para: “queria que assistisse a um filme, topa?”. Blue Valentine foi a indicação e a “deixa”. O recado da incompatibilidade foi dado numa cama, vendo um filme. O argumento da trama foi usado para terminar um namoro real. Félix arrepende-se de toda a tristeza testemunhada por Ryan Gosling. Afinal, no enredo de “Namorados Para Sempre” alguém saiu ganhando?

Félix gostaria de voltar no tempo. Repetir a primeira jarra de sangria sem esperar muito do que pudesse vir. Sem toda a expectativa e afobação determinada por interesse e paixão. Apenas reiterar o incerto, sem planejar - apenas deixando rolar - o que talvez pudesse ter acontecido se não tivessem planos embriagados numa ilusão para se importar.


  

Caixa de Pandora


Teu e-mail pode estar "deletando suas mensagens". Fui checar essa informação. Fiquei em dúvida. “Com a chegada de novas mensagens o e-mail poderia esvaziar automaticamente em ordem cronológica”, dizia um site de tecnologia. Sem ter certeza, depois de vários avisos de falta de espaço, deixei de procrastinar e fui resolver.

Ao entra na conta, a seleção do que limpar era prioritário. Comecei por mensagens mais antigas. Levei um susto. Fiquei horas visitando experiências registradas. Então resolvi assumir a melancolia e enfrentar as relíquias afetivas. Avaliar, chorar e espiar o passado. Não abri nenhuma caixa empoeirada ou folheei álbuns fotográficos desbotados. Muito menos tirei do fundo do guarda-roupas aquele diário em caderno universitário. Não precisou. Apenas continuei no meu e-mail e acessei as redes sociais. Encontrei áudios de conversas, mensagens com (e sem) sentido e muito saudosismo ilustrado em retratos.

Escutei as vozes gravadas em mensagens mesmo sabendo que hoje não são passíveis de respostas. (E olhe: ouvir pessoinhas perdidas no tempo, magoadas contigo, distantes, em outras línguas, sotaques e respirações, é um exercício e tanto). Vasculhei a “caixa de entrada” e encontrei trocas com muita dor. Certo de que algumas linhas foram rascunhadas em lágrimas (inclusive revivê-las marejou os meus olhos). Ah! Tinha aquela fotinha de “boa noite” ou um video-selfie de uma viagem a dois…Nossa quanto lenço de papel e coragem.

Encontrei trabalhos exitosos que hoje não fazem o menor sentido; aquisições de bens materiais que jamais teria comprado nesse momento da minha vida; colhi festejos e recompensas de chefes fugazes; achei despedidas amargas e flertes não correspondidos.

Há uma luta de empoderar o discurso do hoje. Várias linhas filosóficas, psicológicas e religiosas defendem o “viver O AGORA!” Contudo, essa cápsula do tempo virtual narrada aqui contradiz o tal preceito. Afinal, o que é o “aqui e agora” se temos ao alcance o “aqui e agora” de anos atras? O sentimento está ali. Ou melhor: hoje. Não sei. Confuso? Como tratar os fracassos e glórias marcadas como “lidas”? Como se livrar de situações/diálogos gravados em vozes detalhando momentos que deveriam ser solvidos? E o “mal resolvido”? Tão natural do humano, fica onde? Numa tela te perseguindo?

Nossas memórias seriam alteradas em outras épocas, num passado muito recente. Com os dias e anos nosso cérebro nos enganaria – pregaria peças. Diluiria as memórias. Não nos daria com exatidão (em mínimos detalhes) os acertos e erros. Temos lembranças alteradas e distorcidas para o nosso próprio bem. Entretanto, percebo que muitas vezes a exatidão do passado online faz enxergar o futuro com mais amargura, saudade e tristeza.

Meu palpite é que a memória virtual provoca seus (meus) arrependimentos, decepções, nostalgia e traumas. Não me venha dizer que não se autoflagela abrindo a caixa de pandora num momento de reflexão. Duvido! O hábito do ser-humano é cortejar o passado. Percorrer lápides e envernizar seus santuários – isso é universal.

Deletar os registros online é fácil. Desconfio que tendo alcance e desapego apagará parcialmente. Aposto que guardará algum trecho ou mensagem, boa ou ruim. Assim, eternizando para te assombrar amanhã ou depois. E se não for assim, uma lembrança inevitável pulará na sua timeline sugerida por algum algoritmo sem coração ou história. Enfim, o passado deixou de estar atrás. Ele está no hoje e estará no amanhã. Tendo disposição ou não para enfrenta-lo.



  

Soneto Mineral


Num dia era amante.
Percebido a inviabilidade,
Quando cassado o direito de sentir,
Virou DIA-mante.

Eterno para lembrar;
Constante para pensar;
Doente em harmonizar;
Posicionado apenas no altar.

Num dia era amante,
Quando cassado o direito,
Eternizou-se num diamante.

Fraquezas a parte,
Rico seria recuperar
a pedra daquele belo anelar.


  

Girassol


Félix, depois de anos, interessa-se por uma moça. Não aquele desejo de apenas flertar e exercer poder. Mexer com sua autoestima e regozijar por prepotência. Desta vez está com medo de ceder! De ficar sem chão e colocar pra fora sua falta de sensibilidade imersa em fraudes. Nestes anos todos o único afeto experimentado foi o raso sem pisar no fundo. Foi o abraço sem sentido ou sentimento. Foi o prazer cronometrado – medido por um tchau previsto. Sem alento…Sem futuro…Sem memória…

A vida de Félix e suas escolhas umbilicais o impedem com que haja medição de profundidade. A eloquência está chamando pela voz da Ana. Gritando por afinidades descabidas. Havendo relutância em se aproximar mais, e talvez fazê-la sofrer. A moça não têm as máculas mundanas de toda a pobreza humana carregada por ele. Com desfaçatez e muita ingenuidade, Ana é imune às dores do mundo. Não enxerga as profundezas escuras que deixaram o olhar frio e opaco do moço.

As experiências do Félix – em desventuras – não devem atingir o brilho essencial da Ana. Parece que se houver mais aproximação, tudo o que é lindo nela desmoronará pela visão escura apresentada por ele. Trazendo a amargura e apagando com um sopro a lâmpada da ingenuidade – tão legítima e cálida – que puxa a vida da bela para o lado estrito da luz. As experiências e memórias duvidosas dele não podem ser ditas...

Nesta medida, Félix vai no limite – Ana não entende e não compreenderá. O “rapaz turvo” não aceitará o ônus de machucá-la. Tentará protegê-la. Não se perdoará em desconstruí-la no que tem de mais belo: a generosidade incondicional. Mesmo que para isso, Félix anule e negue seus sentimentos mais intensos e irrestritos - outrora esquecidos e nunca mais provocados ou vivido. 

Félix irá estipular barreiras, manter distância e estabelecer sua pobreza – aceitando as impossibilidades. Protegendo de maneira confusa e lacônica a beleza e luz ofertados pela utópica Ana. Quem sabe um dia Félix sinta-se redimido e renovado a ponto de regar – se ainda houver tempo – aqueles girassóis secos que estão até hoje em sua mesa de jantar.



  

Três

Uma mulher
Duas mulheres
Um casamento

Uma mulher
Duas mulheres
Um amor

Uma mulher
Duas mulheres
Um enfrentamento

Uma mulher
Duas mulheres
Uma flor

Uma mulher
Duas mulheres
Um nascimento

Uma mulher
Duas mulheres
Livres para ter seu rebento. 


  

Cabeça a mil

No sol, na caminhada - tudo é esquecido. Ao calor: as memórias evaporam. 
Novos detalhes não são bem-vindos. 
Ambos deslocados, na volta pra casa esquivam-se do "tal" permitido.

Na lua, entre o cobertor - o arrependimento. 
De um lado pro outro, a cama fica pequena e a cabeça roda a mil.
A única forma é levantar, beber água e tomar um Rivotril.



  

Que seja para sorrir

Se o corpo diz,
O coração bate,
A alma clama,
Faça assim:

Não deixe de viver,
E ser feliz.
Jamais abale-se,
Com medo do reprimir.

Se o corpo diz,
O coração bate,
A alma clama,
Faça assim:

Não permita, jamais.
Lute contra tudo!
Conte pra todos!
O quanto foi infeliz...

Se o corpo diz,
O coração bate,
A alma clama,
Faça assim:

Em fevereiro, na capital,
Deixemos por vir.
Uma nova rolha,
Que seja para sorrir.
  

Geada

Época dos pinhões;
Inverno chegando;
Lenhas na fogueira;
Orelhas frias;
Nada como pés juntos,
Aquecidos um ao outro
Derretendo a geada.
Na testa apenas um beijinho.
Do orvalho, entre cobertas,
Café quentinho.

...E um até logo

  

Brinco Órfão

Fabiana perde-se em seus conflitos. Do anel jogado no passado, girando até o hoje definhado. Recuperando a beleza dos dedos - sem brilhos do compromisso. Rejuntando a liberdade naquela toalha, imprimindo a nova escolha da nudez plena e rasgada. 

Nas lágrimas secas continua escondida. Permanecendo o coração trêmulo na cadência da partida. 
Alforriada apenas com um brinco órfão, duma tarraxa polida - outrora reconhecida em suas perdas desmedidas. Tanto do amigo... quanto dos gemidos. 


O fecho do brinco sumido foi achado - e fica ali exposto. Lembrando o passado e seus sentidos. Impedindo atarraxar novamente o que um dia fora morto e esquecido.


  

O Sorriso Amarelo

Num daqueles bares charmosos por sua decadência e boemia - mambembe e de sarjeta. Fabiana aceita um encontro com um desconhecido. Conversaram por horas num aplicativo, e ali estavam para o real e (talvez) afetivo.

Oswaldo já aguardava ansioso sua chegada. Sentado num sofá na passagem da porta. Ela chega dez minutos atrasada. Encontram-se nus, sem nenhum smartphone para dar pudor e proteção. O sorriso de ambos era meio amarelo. Num misto de desconforto, timidez e controle - do que não queriam apresentar: suas fraquezas e dores da solidão.

Conversa pra lá. Conversa pra cá. Oswaldo, como a sociedade exige, tenta encantar, fazer rir e atrair. Fabiana, demonstra pouco interesse (mesmo querendo beija-lo imediatamente). Talvez o jogo hipócrita de dizer sim através do não ainda esteja em voga. Mesmo sendo combatido - com razão - exaustivamente por grupos minoritários.

Ela, como a grande parte das moças, não percebe que o Oswaldo se esforça a partir dos sinais de consentimento. Estava se permitindo e se expondo. Afinal, todos os pontos altos da noite teriam de vir de sua iniciativa. Do convite para tomarem um Gin Tônica, no real. Até o galanteio para tentar um beijo, ou algo a mais, dentro das possibilidade do ideal.

Fabiana nunca tinha percebido, até aquele momento, que normalmente as “vergonhas” das tentativas deveriam partir do seu eventual parceiro. Cabia a ela apenas o sim ou o não. Para as duas situações um constrangimento a ele. Afinal, o desgaste de se mostrar interessante na busca do sim - e o vexatório, caso fosse “não” - seria apenas do Oswaldo.

Continua-se a tentar! Na obrigatoriedade do baile da internet cabe a ele fazer os convites, lidar com os sinais (emanados pelas “Fulanas”) e quando aparentemente são positivos - tentar o avanço para o desconfortável, físico e viceral. E se não forem? Quem passa pela frustração e dores da rejeição? E toda aquela expectativa? Fabiana volta pra casa apenas triste, mesmo com autoestima abastecida pelo interessado, independente da incompatibilidade. Já Oswaldo, retorna derrotado por tanto tempo desperdiçado, tantas palavras, histórias jogadas fora e a vaidade abaixo de zero por não ter tido o consentimento esperado.


  

Quase 24 horas

Contigo não percebia a falta de vida
Desistimos do relógio
Cansamos das roupas e amarras
Por um quase tempo o relógio parou
A conexão descabida nos transformou
O que aconteceu reflete no café preto da semana
Cantado pela cafeteira
Quase num alarme de tristeza
Fora deixado pra trás uma mágica
Talvez uma convergência
Com um amor por quase vinte e quatro horas 
Marcando pra vida inteira.


  

Ressaca

No sol, na caminhada - tudo é esquecido. Ao calor, as memórias evaporam. Novos detalhes são bem vindos. Todos juntos nos olhares perdidos. Na lua, entre o cobertor e o arrependimento - a cabeça a mil. A única forma é levantar, beber água e tomar um Rivotril.



  

O Sabor Desconhecido

A roliça fora puxada com um lençol branco sem respigar o gelo. O Rock na sacada contrastava com o semblante de ternura. A conversa era desafinada ao riff da guitarra. O contorno da garrafa e os afagos lhes deixaram sem palavras. 

Por um dia, numa tarde, uma bela cicatriz desvelada. Na intimidade falsa o brinde final. No último gole restou um despretencioso abraço e um até logo banal.

Ninguém imaginava que anos se passariam. A rolha seria novamente estourada. Porém, desta vez, sem os disfarces e o contrabaixo distorcido. Somente com os olhares e fome pelo desconhecido.


  

Rubi

Tentamos salvar de uma oficina abandonada. Reivindicamos a paz, trazendo-a pra casa. A cadelinha viveu acolhida no tempo que devia. Infelizmente, seu futuro estava traçado: um dia partiria.
Rubi, “rubisteca”, fofura... fique com os anjos caninos e nosso eterno carinho. Tenha a tão sonhada paz nessa passagem.
Fiquemos gratos por sua alegria, companheirismo e amor. Quem sabe um dia esperemos que abane o rabo na chegada, num outro lugar, numa nova morada. 

#rip_rubi
  

Maçã

Todo o caminho que viria, seria dedilhado. Muito contado. Milimetrado. Alucinados, deixaríamos pra lá o que seria motivo de pecado. Totalmente perdidos na nudez e sem compostura para o inevitável.

Imagino teus seios. Você em cima de mim. Balançando entre o prazer e minha boca. Levando os mamilos às pequenas mordidas. E na tua face, vejo-te completamente louca.

O seio direito ficaria cada vez mais rígido, arrepiado. Quase uma maçã. Branquinho e bem durinho. Depois de um tempo, passado, tomaria um tom rosa, quase avermelhado. 

Numa ponta tocaria o bico - tenro e duro. O tesão te contrairia. O bojo, seria inutilizado. Arrancado prá fora. Admirando ainda mais o peito apalpado. Deixando-me ereto de tão lisongeado.

Com os sentidos aguçados, meteria em sua vulva o movimento dos sussurros. As sutilezas da pontinha, acabariam te deixando bem pequenininha. Nessa, não conseguiria. Não iria aguentar. Viva a safadinha!

Pernas apertadas, amarradas e gemidos quietinhos. Temos o suor, os sorrisos e mais vontade. Numa profunda ebulição, distinguindo a verdade, delirando dentro do que deveria ser os limites da razão.

Fagulhas. Eletricidade. Suspiros. Com o teu clitoris úmido não há mais o que fazer. Nem versos e apitos no celular, nem horário para terminar. Somente muita vontade e nada para atrapalhar.

Agora, esteja à vontade para tocar-se com profundidade, esquecendo do virtual. Comungando apenas com o que poderia ser real, com o agora. Experimentando um orgasmo lindo, efetivo e literal. 


Faça bom proveito de sua imaginação, contraia todos os músculos e depois relaxe. Lembrando que não são apenas linhas excitadas, escritas quase com o pau na mão. E sim, uma sensação real, forjada no desejo e no tesão.

  

Rabetão

"Don Octavio Flores" resgata sedutor mascarado. Uma tentativa de suicídio? Ou apenas um alarde para chamar a atenção? Depende do ponto de vista. Depende da compreensão e paixão de quem está assistindo o filme Don Juan de Marco (1994). Nada de análises éticas ou psicológicas. Tá? Me abstenho. Apenas emoção...

O filme teve efeito devastador em muita gente. Não aceitei a classificação "romance", dada na época. E sim, pra mim, um drama muito sensível sobre o amor e a humanidade. Uma narrativa de até aonde as pessoas podem ir perdendo seus sonhos em meio às rotinas. Entre o congelamento e escurecimento das emoções no tumulto do trabalho e às obrigações diárias. Ou ainda, do outro lado, rejeitando a realidade em prol de mais felicidade, amor e paixão pela vida.

Depois de 24 anos revejo tal obra. Lembro das aspirações, ingenuidades e visão romântica que tinha da vida. Meus cílios umedeceram do momento inicial, com o solo de viola e bandolim - da trilha original. Até o fim, com a eloquência de Marlon Brando e Faye Dunaway em performance carinhosa, acompanhados pela voz de Bryan Adams - na "Ilha de Eros".

Curtindo os créditos finais. Pensando na vida. Escutando "Have You Ever Really Loved a Woman?" - CLÁSSICO! Usando todos os lenços disponíveis para secar meus olhos da beleza vista e do saudosismo escrachado. Penso: por onde andam os costumes do amor projetado e sincero? (não que eu seja um exemplo - nada de moralismo). Perdemos o platonismo dos "dezesseis anos de idade"? Talvez esteja ficando velho. No entanto, percebo a ingenuidade rareando cada vez mais cedo. Agora, "Dezesseis", é adulto - ainda há poesia pulsando nas veias de quem usa uniforme e espreme espinhas? 

Não consigo imaginar um Blockbuster nestes moldes hoje. Percebo que as grandes audiências e bilheterias são formadas por "conspirações, política e sangue". Não mais por amor. Não mais por mensagens positivistas e românticas. Não mais por esperança e ilusão. Até Stan Lee - quando projetou o Superman - sua expectativa era o promover o arauto de um futuro próspero e afetuosos. Hoje? Abandonou as grandes parábolas platônicas em prol de tiro, porrada e sangue, sem mensagem metafórica ao final - a criptonita dos tempos atuais venceu.


Torço para os mais novos terem acesso (e interesse) neste tipo de composição audiovisual. Torço em que o amor prospere e deixe de ser um "mozão" de festival, fluxo, rolê ou rede social. Espero de coração que, da mesma forma que me emociona um filme destes, possa emocionar a turma do "rabetão".

  

Ode a Teus

Teus seios cabem na ponta dos meus dedos, 
Não canso de estimular sua imaginação;
Com sussurros ao pé do ouvido retiro teus medos;
No toque, unhas e beijos consigo mais que uma ereção;

Teus seios afagam toda a mudança;
Tanto com pau, quanto com a tua boceta;
Grudados elevamos o suor a um novo nível de confiança.

Teus seios apontam ao além do tesão;
Firmados no duro e molhado desejo
Queremos o alicerce e o ponto do fato - da relação.

Teus seios balançam na dureza da distância 
Nem por isso desisto, ou desistimos do calor
Em um cantar gemido persistimos na tolerância;

No retorno divagamos a união metendo forte na esperança.

  

Forro Costurado

Das belezas incontáveis. Dos lamentos mais profundos, sempre noto alguém especial. Não aquelas pessoas que apenas incendeiam os desejos mais íntimos. Ou os pensamentos mais carinhosos. E sim, aquelas que irão ter um caminho reluzente como um olho azul.

Sua vida me faz admirar - crer: A humanidade pode sim ser boa. Suas dificuldades e percalços, unindo aos teus sonhos, serão um carrilhão tocando no futuro. Chamando a atenção de muitos pelo sucesso certo e maduro.

O que vale são as pequenas lantejoulas costuradas uma a uma na túnica de gala. Ela irá reluzir junto com seus olhos azuis num declamar daqui a alguns anos em apenas uma fala.

Não deixe de costurar cada lantejoula - verá como será belo quando as tiver bordado em grande número. Não fará mais diferença o fôrro do pano opaco e tímido do início árduo. Com suas inspirações, aproveite! 

Enxergue um mundo melhor através da poesia, emoldurando a essência de seu olhar. Não deixe escapar nenhuma lantejoula solta, se perdendo entre uma linha, ou no ar. Certifique-se que os tablados, púlpitos e coxias tenham espaço para o teu inspirar.

Com o vestido de gala bordado, fechado em lantejoulas, muita vida terá para atuar. Talvez em frente de um juiz, ou de uma público particular. Nada irá te conter nesse futuro espetacular.

  

Maria e João

Seu João tem remendos em seu vinco para esconder a idade do jeans. Conta as moedas para passar a catraca. Dona Maria retira o guarda chuva de uma bolsa tratada com naftalina e sai da estação.

No circular-centro, em direção à praça, muitas Marias e “Joãos”. Todos sem escolha para ir, vir ou procurar emprego. Ou melhor, a alternativa nem é questionada sob a luz da dúvida em fazer o bem, cuidar dos seus ou acertar na educação.

Fé na honestidade? Tantos homens e mulheres sem nenhuma dúvida enfrentam a escassez sem atribuir ao remendo, ou à dificuldade em uma simples escolha. A via da normalidade - Aquela com muita "honestidade".

Em tempos de crise, alguns bradam: "todos são corruptos! A humanidade está perdida". Bem, para estes que conclamam a falta total de escrúpulos da sociedade, sugiro pegar um ônibus bem cedo. E ver milhares de "Marias e “Joãos" em pontos, terminais e estações, do mundo todo, com dois pensamentos: odiando ter que trabalhar e "que bom, garanti o pouso e comida das nossas crianças".

Honestidade? Imagino que esta palavra só deva ser usada em antagonismo aos que utilizam a prevaricação social em se promover. Ou até mesmo, se espantar com a decência inocente do bolso furado do Seu João.

  

Conspiração

Unidos apenas por um fio. No seu tempo. Colados como fita crepe, apenas com o arrepio. No silêncio, sem nenhum pio. Sabemos que gritaremos mais, ainda mais, depois de um banho quente, um gole d'agua e um tempo arredio. Enrolados na toalha para espantar o frio. Um mundo inteiro irá conspirar. Em breve tudinho escrito aqui irá rolar. Não terá mais nada para atrapalhar. A não ser o toque verdadeiro em sentir e ultrapassar. Perdendo os limites para gemer sem parar.


  

Ausência Suada

Numa mensagem negada, suspiro a falta de afago. Reluto em aceitar a ausência suada. 
Num aforismo errei em não declarar minha vontade - talvez lamentar a única oportunidade. 
Numa mensagem negada, suspiro a falta de afago. Reluto em aceitar a ausência suada. 
Entre um gole e outro me desfiz da face dada - sem receio de mais nada. 
Numa mensagem negada, suspiro a falta de afago. Reluto em aceitar a ausência suada. 
Na calçada, um litrão é muita conversa, reitero minha nudez - sem medo de rispidez. 
Numa mensagem negada, suspiro a falta de afago. Reluto em aceitar a ausência suada.


  

Infeliz Vontade de Sair

Queria sair,
Não sei se vai querer ir,
Remeto uma nova mensagem?
Talvez!

Queria sair,
Não sei se vai querer ir,
Não irei insistir,
Nem reagir.

Queria sair,
Sábado com um bom fim,
Combinado e perdido nas mensagens.

Infeliz vontade de sair.
  

En Suiza: Sólo de Nombre

Desde 2013 el español rompe mi corazón. Un mensaje enviado sin el derecho de réplica infla hasta hoy lo imposible. En Suiza, sólo de nombre,  mi alma fue pintado de azul y blanco. Dejando los recuerdos con el dolor. Impendindo para el futuro una realidad cubierta de seis mil quilómetros.










  

Apenas Nu


Nu! Apenas nu;
Tento agradar a tu;
Nu! Apenas nu;
Trago-te para vida;
Nu! Apenas nu;
Enrolo sua partida.
Nu! Apenas nu;
Tento agradar a tu;
Nu! Apenas nu;
Desisto da aposta;
Nu! Apenas nu;
Rendo-me a sua resposta.
Nu! Apenas nu;
Deixo-te na despedida;
Nu! Apenas nu;
Consolo-me em desmedida
Nu! Apenas nu;
Retorno de cabeça erguida.
Nu! Apenas nu...

  

Fé

A questão de reger sua vida pela crença, espiritualidade e dogmas religiosos pode desencadear cruzadas, instituir guerras, estabelecer sectarismos e mover atitudes insanas em nome de uma verdade egoísta chamada de fé.  
  

Nenhum Rancor

Se tivesse direito de dar conselhos;
Se levasse a sério minha vida;
Se encantasse meus desejos;
Contaria apenas uma coisa:
Falaria da pequena chance que temos de ser feliz;
Não importaria a maneira, apenas o sorriso rasgado,
Iluminado por um momento de indiferença com a solidão.

Se tivesse direito de dar conselhos;
Se levasse a sério minha vida;
Se encantasse meus desejos;
Contaria apenas uma coisa:
Indicaria para não perder tempo com rumores;
Experimentaria a falta de pudor;
Deixaria um instante de lado as peripécias da dor.

Se tivesse direito de dar conselhos;
Se levasse a sério minha vida;
Se encantasse meus desejos;
Contaria apenas uma coisa:
Encararia as possibilidades;
Livraria das garras a tristeza, 
E seguiria em frente somente com a beleza,
Bradadas sem nenhum rancor.

  

Medalha

(Idoso de muleta - Claramente em tratamento de Câncer sobe comigo)

Ele - boa tarde!
Eu - boa!
Ele - como foi teu sete de setembro?
Eu - descansando. Em casa. E você?
Ele - fui no desfile
Eu - legal. E como foi?
Ele - (Olhando para sua região pélvica, especificamente para seu pênis) diz: - ganhei medalha.
Eu - Rindo, pergunto: - como?
Ele - "ele" ganhou uma medalha de ex-combatente e tempo de serviço. (Rindo muito)

Quisera eu ter ânimo para fazer piada de mim numa situação destas. Temos de aprender com ele. Depois descobri que o senhorzinho está em tratamento de CA de próstata - Metástase!


  

Batata Frita

Rodo a bolacha de chope;
Brinco com seu girar entre a mesa e minha mão;
Nos lábios, junto da minha barba, enxugo meu bigode de espuma;
Perpasso a língua ajudando na tarefa;
Continuo a rodar a bolacha de chope entre os dedos;
Seco meu bigode por horas;
Minha companheira de mesa, junto ao chope: a batata frita;
Evito olhar profundamente para as outras pessoas;
Invisível: assim quero estar;
Abraçado ao lúpulo, minha visão turva e meu anonimato.

  

Andares da Idade

No elevador 1 (Um)

Certo dia. Voltando para a casa, dentro do elevador, puxo papo (e tento ser educado - sem estar paquerando) com uma moradora do meu condomínio:
Eu: Boa noite. Tudo bem? 
Moça: Tudo bem. Boa noite
Noto que ela está com um moletom escrito "Medicina".
Eu: Que legal, faz medicina! 
Moça: Sim. Eu faço, SENHOR.
Abaixo o olhar e fico calado. Lembrei na hora do "Tio Sukita". Embora não estivesse flertando com a futura médica pensei: meus cabelos brancos estão tirando minha juventude. "SENHOR??????!!!!!" PQP!

No elevador 2 (Dois)

Entra um homem de aproximadamente 60 anos. Pra manter minha cordialidade faço os devidos cumprimentos:
Eu: Boa tarde. Como vai?
Ele: Ótimo! 
Eu: Você tava na academia? 
Ele: Sim. Tenho de me manter jovem para as gatinhas.
Eu: Isso aí! Xô sedentarismo. Animação!
Ele: Gosta de Vinícios de Moraes?
Eu: Adoro! Um gênio de nossa música e literatura.
Ele: Tenho uma frase em que sempre penso quando estou fazendo spinning e admirando nossas vizinhas: "enquanto houver língua e dedo nenhuma mulher nos mete medo"
Eu: despeço-me do vizinho e desço no meu andar.

Conclusão: o "Tio Sukita" varia de acordo com a idade da mulher, sua mentalidade e autoestima. Nada tem a ver com a data de nascimento do homem.

Tô certo? 

Ps. Para quem não conheceu o emblemático "Tio Sukita" na cultura publicitária brasileira, clica aqui.

  

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Como tudo começou: